Proclamação da República: o infame golpe contra o povo brasileiro
Imagem: Proclamação da República Benedito Calixto, 1893.
Texto escrito por Júlio Rouberte, historiador e pós-graduado em história do Rio de Janeiro e Ciências da Religião.
No dia 15 de novembro de 1889, o Brasil passou por uma ruptura política que, embora celebrada oficialmente como progresso, modernidade e libertação, ocorreu sem a participação do povo e sem qualquer consulta democrática. O evento conhecido como Proclamação da República representou, na prática, um golpe de Estado contra um regime constitucional vigente, dissolvendo a monarquia parlamentarista brasileira de forma abrupta e autoritária.
A população brasileira, em sua maioria alijada do processo político, foi surpreendida pela mudança. Não houve plebiscito, debate nacional ou mobilização popular. O Brasil viveu um episódio singular: dormiu monarquia e acordou república. Essa frase, repetida por diversos historiadores, sintetiza o estranhamento coletivo diante de uma transformação imposta de cima para baixo, conduzida por uma elite política e militar que não representava os anseios da maioria da sociedade.
Um movimento restrito a poucos e distante do povo
O movimento republicano brasileiro não foi um levante popular. Diferentemente de outros processos revolucionários da história, a queda da monarquia no Brasil não nasceu das ruas, das associações civis ou da pressão direta da população. Tratava-se de um projeto articulado por setores específicos do Exército, por intelectuais influenciados pelo positivismo e por elites agrárias insatisfeitas com decisões recentes do Império.
Grande parte desses indivíduos se autodenominava republicana e abolicionista, embora muitos tivessem apoiado o regime escravocrata até seus últimos dias. Suas ideias eram fortemente inspiradas em modelos europeus e norte-americanos, pouco adaptados à realidade social, econômica e cultural brasileira. O discurso de modernização escondia interesses corporativos, ressentimentos pessoais e disputas internas de poder.

A Abolição da Escravidão e a quebra do pacto com as elites
A assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, pela Princesa Isabel, foi um divisor de águas na história do Brasil. Ao extinguir oficialmente a escravidão, o Império deu um passo decisivo rumo à dignidade humana e ao reconhecimento, ainda que tardio, da liberdade dos povos negros escravizados.
No entanto, esse avanço civilizatório teve um custo político elevado. As elites agrárias, especialmente os grandes proprietários de terra, sentiram-se traídas pelo Estado imperial. Esperavam indenizações que nunca vieram e passaram a ver a monarquia como um obstáculo a seus interesses econômicos. Assim, a abolição, um ato de justiça histórica, transformou-se no estopim da ruptura política.
O que se seguiu foi uma aliança tácita entre militares insatisfeitos e setores da elite econômica, unidos não por um projeto de nação inclusivo, mas por ressentimentos e conveniências. A monarquia perdeu sustentação entre aqueles que, por décadas, haviam sido seus principais beneficiários.
Dom Pedro II e a legitimidade de um Império constitucional
Dom Pedro II governava um Império constitucional, parlamentarista e reconhecido internacionalmente por sua estabilidade institucional. Intelectual respeitado, defensor da ciência, da educação e do diálogo entre nações, o imperador brasileiro era admirado por líderes estrangeiros e por amplos setores da sociedade.
Seu governo manteve o Brasil distante das sucessivas guerras civis que marcaram outros países da América Latina no século XIX. Sob sua liderança, o país consolidou instituições, promoveu avanços educacionais e científicos e construiu uma imagem de credibilidade no cenário internacional.
Relatos históricos indicam que, ao saber da deposição de Dom Pedro II, o então presidente dos Estados Unidos teria declarado: “acabou a última democracia da América Latina”. Independentemente da exatidão literal da frase, ela expressa o reconhecimento externo da monarquia brasileira como um regime constitucional legítimo e funcional.

O exílio como escolha para evitar uma guerra fratricida
Mesmo possuindo condições militares para reagir — especialmente o apoio da Marinha, mais forte que o Exército rebelado — Dom Pedro II recusou-se a reprimir o movimento republicano pela força. O imperador compreendia que qualquer tentativa de resistência armada resultaria em uma guerra civil, colocando brasileiros contra brasileiros.
Sua decisão de aceitar o exílio foi motivada por um profundo senso de responsabilidade histórica. Para Dom Pedro, manter-se no trono não justificava o derramamento de sangue do próprio povo. Assim, partiu para o exílio com sua família, em condições modestas, deixando para trás um país que não teve a oportunidade de decidir seu próprio destino.
Esse gesto, longe de ser sinal de fraqueza, revela uma postura ética rara na história política mundial: a renúncia ao poder em nome da preservação da vida e da unidade nacional.

Deodoro da Fonseca e o peso do arrependimento
O marechal Deodoro da Fonseca, figura central do golpe, não desfrutou da tranquilidade que muitos imaginavam. Após a deposição do imperador, relatos históricos apontam que Deodoro tentou enviar uma quantia significativa de dinheiro a Dom Pedro II, ao saber que ele seguiria para o exílio sem recursos abundantes.
O imperador recusou o auxílio, alegando que o valor não havia sido aprovado pelo Parlamento. A tentativa de Deodoro é interpretada por muitos historiadores como um gesto de remorso tardio, fruto da consciência do erro cometido. Dois anos depois, pressionado por crises políticas, econômicas e institucionais, Deodoro renunciaria à presidência da República.
Seu governo foi marcado por instabilidade, autoritarismo e contradições, revelando que a República nascera sem bases sólidas e sem um projeto nacional coeso.
A fabricação de mitos e o apagamento do passado
Com a República instaurada, tornou-se necessário legitimar o golpe. Para isso, construiu-se uma narrativa oficial que glorificava o novo regime e demonizava o período imperial. Símbolos foram criados, heróis foram fabricados e a monarquia passou a ser associada ao atraso e à opressão, ignorando suas complexidades e conquistas.
Esse processo de reescrita da história teve consequências profundas. Ao apagar o passado imperial, o Brasil perdeu parte significativa de sua memória coletiva. A população foi educada a celebrar um evento que jamais escolheu e a desconhecer o funcionamento de um regime que, possuía bases constitucionais mais estáveis do que a jovem República.

As consequências históricas de um golpe não resolvido
A República prometeu liberdade, participação e igualdade, mas nasceu excludente. O voto continuou restrito, o analfabetismo permaneceu elevado e a maior parte da população seguiu distante das decisões políticas. As oligarquias regionais assumiram o controle do poder, inaugurando um período marcado pelo coronelismo, pelo autoritarismo e pela repressão.
As marcas daquele golpe de 1889 atravessaram os séculos. A fragilidade institucional, a recorrência de rupturas democráticas e a dificuldade de consolidar um projeto nacional inclusivo são heranças diretas daquele momento. O Brasil perdeu a oportunidade de evoluir politicamente de forma gradual e pactuada, optando por uma ruptura que gerou mais problemas do que soluções.
Perderam-se séculos de legado, referências simbólicas e uma identidade nacional que poderia ter sido construída com maior coesão. O resultado é um país que, ainda hoje, luta para compreender sua própria história e para reconhecer as origens de suas crises recorrentes.
Revisitar a Proclamação da República não é um exercício de nostalgia, mas de consciência histórica. Compreender que aquele evento foi um golpe — e não uma libertação popular — é fundamental para que o Brasil possa, finalmente, encarar seu passado sem mitos e construir um futuro baseado em verdade, participação e memória.
Este artigo tem caráter histórico e educativo, baseado em pesquisas acadêmicas e fontes documentais, com o objetivo de promover reflexão crítica sobre o passado brasileiro.
Bibliografia
- CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
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