Os Refains, a tribo de gigantes bíblicos
Imagem: Phebe Ellen Nichols. Mapa da Galiléia (Mapa de Canaã). 1853 Fonte: Wikimedia Commons
Texto escrito por Júlio Rouberte, historiador e pós-graduado em história do Rio de Janeiro e Ciências da Religião.
Quando se percorrem os textos bíblicos que tratam das origens dos povos antigos do Oriente Próximo, é impossível ignorar a presença de narrativas que desafiam a leitura puramente histórica e convocam o leitor a dialogar com o mito, a memória coletiva e a teologia. Entre esses relatos, a menção aos Refains ocupa um lugar singular, pois reúne elementos de ancestralidade, territorialidade, poder militar e mistério religioso. Longe de serem apenas figuras lendárias, os Refains aparecem como um povo concreto, associado a cidades, reis e batalhas, cuja lembrança atravessou gerações e foi preservada em diferentes livros do Antigo Testamento.
O termo “Refains”, derivado do hebraico Rapha ou Rephaim, carrega significados que vão além da simples ideia de gigantismo físico. Ele está ligado à noção de força, temor e até mesmo de uma presença que ultrapassa o comum. Em várias passagens bíblicas, os Refains surgem como símbolos de um passado poderoso que contrasta com a experiência histórica de Israel em sua formação como povo. A tradição os associa à terra de Canaã, especialmente às regiões de Basã, Astarote e Edrei, locais que se tornaram emblemáticos nas narrativas de conquista e confronto.
Mais do que responder à curiosidade sobre gigantes bíblicos, o estudo dos Refains abre caminhos para compreender como os antigos israelitas interpretavam o mundo ao seu redor, ressignificando povos vizinhos, ruínas monumentais e memórias de civilizações anteriores. À luz de descobertas arqueológicas modernas, especialmente em Ugarit, essas narrativas ganham novas camadas de interpretação, permitindo um diálogo fecundo entre texto bíblico, arqueologia e história das religiões.
Os Refains nas Escrituras Hebraicas

Os Refains são mencionados em diversos livros do Antigo Testamento, como Gênesis, Números, Deuteronômio e Josué, sempre associados a uma antiga população que habitava a terra antes da consolidação de Israel. Em Gênesis 14, por exemplo, aparecem como um povo derrotado em campanhas militares envolvendo reis da Mesopotâmia, o que já indica sua inserção em um cenário político mais amplo do que apenas o universo israelita.
No livro de Deuteronômio, os Refains são descritos como um povo de estatura incomum, cuja memória permanece viva mesmo após sua derrota. Essa ênfase não deve ser lida apenas de forma literal, mas também simbólica, pois reforça a ideia de que Israel enfrentou desafios aparentemente impossíveis, superados não pela força humana, mas pela ação divina. A narrativa bíblica, nesse sentido, utiliza os Refains como contraponto para exaltar a soberania de Deus na história.
Josué retoma essa tradição ao mencionar as cidades associadas aos Refains, destacando a conquista de territórios que antes pertenciam a povos considerados temíveis. A recorrência dessas referências sugere que os Refains ocupavam um lugar importante na memória coletiva regional, sendo reconhecidos por diferentes grupos como antigos habitantes de Canaã. Assim, mais do que um detalhe narrativo, eles funcionam como marcadores de tempo, indicando um passado remoto e poderoso.
Canaã, Basã e as cidades dos gigantes

A região de Canaã, frequentemente descrita como terra fértil e estratégica, foi palco de intensas disputas ao longo da Antiguidade. Dentro desse espaço, Basã se destaca como um território particularmente associado aos Refains. Conhecida por suas cidades fortificadas e por sua produção agrícola, Basã tornou-se símbolo de poder e abundância, o que ajuda a explicar por que seus antigos habitantes foram retratados como gigantes.
As cidades de Astarote e Edrei aparecem nos textos bíblicos como centros de domínio refaíta. Essas localidades, além de seu valor estratégico, carregavam um peso simbólico, pois representavam a permanência de uma ordem antiga diante do avanço de novos povos. A arqueologia moderna identificou estruturas monumentais na região, com construções de grandes blocos de pedra, que certamente impressionaram observadores antigos e contribuíram para a associação com seres de grande estatura.
É importante notar que, no imaginário antigo, monumentalidade arquitetônica frequentemente se traduzia em narrativas de gigantismo. Assim, ao se depararem com cidades robustas e ruínas colossais, os autores bíblicos e suas comunidades podem ter interpretado essas evidências como sinais de um povo extraordinário, reforçando a memória dos Refains como gigantes.
A ligação entre Refains e Nephilim

Um dos aspectos mais intrigantes da tradição sobre os Refains é sua possível ligação com os Nephilim, os gigantes antediluvianos mencionados em Gênesis 6. Embora a Bíblia não estabeleça de forma explícita uma genealogia direta entre esses grupos, a tradição interpretativa, tanto judaica quanto cristã, frequentemente os associa.
Os Nephilim são apresentados como figuras que antecedem o dilúvio, marcando um tempo de corrupção e ruptura entre o humano e o divino. Ao associar os Refains a essa linhagem, a narrativa bíblica cria uma continuidade simbólica entre o mundo anterior ao juízo divino e os povos que habitavam Canaã. Essa conexão reforça a ideia de que os Refains carregavam consigo não apenas força física, mas também uma herança espiritual problemática.
Do ponto de vista teológico, essa associação funciona como advertência: povos que se afastam da ordem divina, mesmo que poderosos, estão destinados ao declínio. Assim, os Refains se tornam parte de uma narrativa maior sobre memória, julgamento e renovação.
O rei Ogue de Basã e o imaginário bíblico

Entre todos os Refains mencionados na Bíblia, o rei Ogue de Basã ocupa lugar central. Descrito como o último dos Refains, Ogue é apresentado como um governante poderoso, cuja derrota simboliza o fim de uma era. O detalhe sobre o tamanho de seu leito, feito de ferro, é frequentemente citado como prova de sua estatura extraordinária, mas também pode ser lido como recurso literário para enfatizar sua grandiosidade.
A narrativa do confronto entre Moisés e Ogue não se limita a um relato militar. Ela cumpre uma função teológica clara: demonstrar que nenhum poder humano, por mais impressionante que pareça, pode resistir à vontade divina. Ogue, nesse contexto, representa o ápice do poder refaíta e, ao mesmo tempo, sua ruína.
A figura de Ogue também inspirou tradições posteriores, incluindo textos apócrifos e especulações sobre a existência de registros históricos perdidos, como o suposto “Livro de Ogue”. Embora não haja comprovação de tal obra, a persistência dessa ideia revela o fascínio duradouro exercido pelo personagem.
Ugarit e as novas leituras sobre os Refains

As descobertas arqueológicas em Ugarit, a antiga Ras Shamra, trouxeram contribuições decisivas para o estudo das religiões cananitas. As escavações revelaram uma sociedade complexa, com rica produção literária, administrativa e religiosa. Entre os textos encontrados, há referências aos rpum ou rapiuma, termo que muitos estudiosos associam aos Refains.
Esses textos sugerem que os Refains não eram apenas guerreiros, mas também figuras cultuais, possivelmente ancestrais divinizados ou espíritos associados ao mundo dos mortos. Essa interpretação amplia significativamente a compreensão do termo, deslocando-o do campo exclusivo do gigantismo físico para o universo da religião e da memória ancestral.
Essa perspectiva dialoga diretamente com a Bíblia, onde os Refains também aparecem, em alguns contextos, associados ao mundo dos mortos. Assim, a arqueologia não contradiz o texto bíblico, mas oferece novas chaves de leitura, enriquecendo o debate acadêmico.
Memória, mito e história

A persistência da figura dos Refains ao longo dos séculos revela como mito e história se entrelaçam na construção da memória coletiva. Para os antigos israelitas, lembrar dos Refains era também afirmar sua própria identidade, marcada pela superação de desafios e pela confiança na ação divina.
Do ponto de vista histórico, os Refains podem representar povos antigos cuja presença foi preservada de forma fragmentada. Já do ponto de vista simbólico, eles encarnam o passado poderoso que precisa ser reinterpretado para dar lugar a uma nova ordem.
Essa ambiguidade é precisamente o que torna o tema tão relevante para os estudos contemporâneos, permitindo leituras que transitam entre arqueologia, teologia e antropologia.
O estudo dos Refains permanece aberto, convidando pesquisadores e leitores a revisitar textos antigos com novos olhos. À medida que escavações avançam e leituras se aprofundam, a tribo dos gigantes bíblicos deixa de ser apenas uma curiosidade para se tornar uma chave interpretativa sobre como os antigos compreendiam poder, memória e transcendência. Explorar essas narrativas é, em última instância, dialogar com as raízes profundas da experiência religiosa e cultural do Oriente Próximo.
Texto por Júlio Rouberte, historiador e pós-graduado em história do Rio de Janeiro e Ciências da Religião.
Bibliografia
- BÍBLIA HEBRAICA. Traduções diversas.
- DEVER, William G. Who Were the Early Israelites and Where Did They Come From? Grand Rapids: Eerdmans, 2003.
- SMITH, Mark S. The Ugaritic Baal Cycle. Leiden: Brill, 1994.
- VAN DER TOORN, Karel; BECKING, Bob; VAN DER HORST, Pieter. Dictionary of Deities and Demons in the Bible. Leiden: Brill, 1999.
- FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: Girafa, 2003.
